Cores e sensações

Dizem que os primeiros homens utilizavam a cor para atrair a caça. Eles achavam que ela tinha alguma magia e traziam em seus corpos e nas paredes das cavernas representações coloridas que, segundo eles, atraiam a caça para si durante a jornada.

Tanto para os babilônicos como para os egípcios, as cores eram consideradas fundamentais para a representação do poder e da religiosidade, pois as cores tinham representatividade mística. Em ambas as culturas as vestimentas das pessoas comuns eram de cores neutras, como branco, bege ou cinza e só permitia a classe dominante o uso das cores vibrantes para assim, mostrar aos demais o seu domínio.

Muita coisa se estuda e se diz em relação às cores, seus significados, histórias, propriedades físicas e usos ao longo do tempo. O grande problema é quando queremos utilizá-las de acordo com outras culturas. Sei não, mas às vezes acho que muito do que estudamos a respeito de cores, teorias, psicodinâmica e aplicações se torna furado quando não pensamos no cultural ao nosso redor de uma forma mais pura.
A maioria dos estudos a respeito de cores vem de outros países, outras culturas e para nós são costumes enlatados, e grande parte dos costumes de uso cromático que nos foram impostos já vieram prontinhos de outros lugares junto com empresas que já pesquisaram [em seus mercados de origem] que isso era bom para o produto que eles vendem. Sim, fomos impostos mesmo! Por acaso alguém já te perguntou [sem lhe dizer qual objetivo] o que certa cor significava pra você independendo do que sempre lhe disseram que ela significava? O pior é que na época da faculdade eu era muito apedrejado por pensar assim.

Somos apesar de tudo que se diz sobre modernos, vanguardistas e tecnológicos, presos em grande parte a estudos cromáticos antigos e com base em teorias pesquisadas em outras culturas. Se levarmos em consideração que o Brasil já é por si só um grande amalgama de culturas, podemos perceber que estamos em um caminho bem diverso do que realmente deveria ser trilhado.

Uma galera de pigmentos naturais sendo vendidos em Marrocos

Não estou dizendo que não tenhamos nenhum estudo digno, por favor, não me levem a mal e eu não generalizo nada, mas tenho plena certeza de que a maioria dos designers e outros profissionais que eventualmente usam cores como forma de expressar algo, trabalham com formulas prontas que para outros serviram um dia e podem até servir hoje, mas que para ele mesmo se trata de um grande “miojo”, que já está a apenas três minutos do trabalho final e pronto. O problema é que o miojo uma vez ou outra quebra o galho, mas se deixar pra fazer uma dieta de miojo, seus clientes vão te achar muito desnutrido com o tempo.

Meu objetivo com este texto não é dizer o significado de cada cor, afinal isso você pode ver aqui, aqui, e aqui. Ops, aqui também! Se você acessou a algum desses links, vai notar que apesar de terem sempre uma abordagem diferente, digo, cada cor, significa uma coisa diferente segundo a explicação de cada site, na maioria dos casos trata-se de um texto colado de outro lugar falando sobre a explicação de outra pessoa que normalmente pegou de outro lugar segundo outra cultura, outra abordagem.

Ao início para se representar cores, as pessoas precisavam de pigmentos caríssimos, que poucos podiam pagar por eles, daí a história das roupas dos nobres terem cores e das demais pessoas serem cores neutras, no caso dos babilônicos e dos egípcios era uma proibição, mas já na idade média essa restrição se dava pelo preço das cores mesmo.
Pra se ter um tecido vermelho, por exemplo, era um absurdo, por isso as cores reais eram muito representadas pelos tons vermelho, púrpura, roxo e em alguns países, devido as dificuldades a coisa se estendida ao laranja e ao amarelo.

Pigmento vermelho de cromo

Hoje fabricar uma determinada cor nem é tão difícil assim, nem os pigmentos são tão caros e tampouco é difícil ter acesso a uma palheta para escolha, o computador que você usa pra ler esse texto agora mesmo pode te mostrar uma palheta de cores em um editor de imagens, e se não quiser pode procurar no Google uma infinidade de sites sobre cores que fazem esse trabalho, e ainda fazem pra você o trabalho sujo de mostrar os meio-tons, cores opostas, complementares, análogas e tudo mais. Enfim, foi-se a época do lápis-lazúli, do carmin, terra de siena, terra de siena queimada, vermelho de cromo, ufa! Agora chegamos à frente do computador, abrimos um photoshop, e mexemos na palheta e dizemos: “Essa é a cor que quero!”, e pronto!
Isso é ruim? Claro que não, pelo contrário, é maravilhoso! Porém aumenta [e muito] o risco de usarmos as cores indevidamente e inadvertidamente.

 

O fato é que a grande maioria faz uso das cores com base em fórmulas prontas e eu mesmo já me peguei utilizando as mesmas fórmulas, e com o tempo fui percebendo que nem sempre a coisa é por aí, nem sempre dá certo, nem sempre fica bom. Muitas dessas fórmulas dizem respeito ao usuário de forma psicológica, por exemplo: “Laranja: Tem grande poder de dispersão, estimula o apetite e representa a instabilidade e inconstância. Por esses motivos, também não é a cor mais indicada para o escritório.”. Eu particularmente nunca achei que (ou senti) que a cor laranja estimule o apetite, sei que isso é amplamente divulgado por muitos e repetido mais ainda por muitos outros designers, publicitários e papagaios de plantão. Mas e as pessoas que inovaram, e passaram por cima do consenso popular e utilizaram exatamente o contrário em suas embalagens, propagandas e deram certo?

A partir de hoje tente “resetar” seu perfil mental pra cada cor, pare de imaginar que o vermelho seja a cor da paixão (ok, ok, eu não vou forçar a barra assim também), mas na medida do possível e com as cores possíveis que não são tão emblemáticas primeiro comece a ver as cores como se fosse um artista plástico, feche os olhos, e mentalize aquele momento, a fome, a dor, a alegria, o frio, e descubra que você pode se surpreender ao ver que o seu cérebro interpreta algumas cores de uma forma bem diferente daquela cognição normal a que estamos acostumados.
Sinta-se a vontade para vir aqui e comentar depois.

Em tempo: no vídeo abaixo foram utilizados pigmentos para fazer essas cores e efeitos.